Quaresma, tempo de deixar-se conduzir pelo Espírito Santo aonde Ele quiser nos levar. Jesus, conduzido pelo Espírito, foi ao deserto, para lá preparar-se para sua caminhada, após o Batismo de João. Seguir este mesmo caminho é despojar-se das próprias vontades e ir aonde Deus quer nos levar, sem ideias pré-concebidas ou conceitos pré-estabelecidos. O “retiro” espiritual deve fazer parte de nossos dias neste tempo, independente do estilo de vida, dos compromissos que temos ou do estado em que nos encontramos.

E neste primeiro domingo deste tempo forte da vida da Igreja vemos ser desenhada toda a História da Salvação – Criação, pecado, Redenção – para nos mostrar qual o caminho certo a seguir. É hoje posto diante de nós o destino a que todos nós fomos criados. Não “destino” no sentido de predestinação, mas como finalidade, como essência da existência humana. Fomos criados para a eternidade e isto a liturgia deste domingo nos evidencia. Mostra-nos também que o pecado acontece quando escolhemos, ao invés da eternidade, a temporalidade: aquilo que não levaremos deste mundo, o que nos prende e nos faz distanciar-se do céu.

O tentação dos Adão (1551) Tintoretto

A tentação tem este objetivo de nos fazer acreditar que o pecado nos dará essa liberdade, que é, na verdade, ilusória. Esta falsa liberdade desfigura Deus e desfigura sua Palavra. As “ordens” de Deus que são pautadas no amor e na verdade, que são balizas para a felicidade, se tornam prisões que supostamente nos tirariam a possibilidade de sermos felizes.  Então, o tentador faz com que se veja a Deus como aquele que priva, aquele que tira o prazer e as coisas boas da vida, que não nos quer ver felizes. No entanto, Deus, ao criar o homem, o coloca num jardim onde havia tudo isso e muito mais. Não faltava nada ao homem.

O pecado – o “não” de Adão, o primeiro homem –, surge neste jardim, onde o homem estava cercado de belezas, de prazeres, de alegria, de verdade. Por sua vez, a salvação – o “sim” de Jesus – vem num lugar onde tudo falta: sem beleza, sem recursos, solidão. O pecado é sempre um não a Deus. E não somente isto, mas é um meio de se dizer a Deus: “não quero ser conduzido ou obedecer a ti; quero fazer e seguir meu próprio caminho, mesmo que me leve à destruição”. É tirar Deus e colocar-se no lugar dele.

O pecado surge quando Adão e Eva se inclinam às suas vontades e esquecem de Deus. Querem seguir seus próprios caminhos. Querem ser deuses – como a promessa da serpente. Hoje, toda vez que seguimos o mesmo caminho, somos como Adão e como Eva. Trazemos o pecado ao mundo, não somente a nós, mas a toda a humanidade, mesmo o pecado mais íntimo. Afinal, o que “comer” de um fruto poderia trazer de mal? Mas, antes do ato, vinha a intenção: “sereis como deuses”. Não era para matar a fome, pois ali havia abundância de alimentos. Não foi por desconhecimento, pois Deus havia dito: “Não comais dele, do contrário, morrereis” – a desobediência trouxe para uma relação que era pautada no amor e na liberdade, a morte e a concupiscência. E Deus não compactua com a morte e o pecado.

O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso, de Michelangelo (1508-1512).

O pecado de um só homem trouxe a morte, como vai dizer Paulo na carta aos Romanos. Pecado que foi passado de geração em geração, pois todos pecaram. Mas também a obediência de um só homem trouxe a salvação e a vida. Em Jesus, temos a abundância do jardim em Éden. No seu sim, somos colocados novamente no jardim junto de Deus.

Hoje somos convidados a fazer uma escolha: imitar Adão em seu pecado, ou seguir a Jesus em sua obediência à Palavra de Deus. Não é somente saber da existência desta Palavra, saber do que está escrito ou decorar trechos para usá-los aleatoriamente segundo nossas vontades, mas sim seguir o que “Está escrito”. Aquele se pauta pela Palavra de Deus não erra jamais. Podem vir as dificuldades e tentações e sempre saberá responder com a mesma certeza da qual Jesus respondeu ao diabo.

Só nos resta responder à pergunta essencial desta liturgia: trocaremos a consolação divina por um simples pedaço de pão movidos pelas nossas vontades? Que este tempo quaresmal nos ensine a progredir no conhecimento de Jesus, para respondermos ao seu amor através de uma vida mais santa.

Ewerton Hartkoff – equipe Mais de Deus