Transfiguração.

Transfiguração 1487-1495. Giovanni Bellini, Museo Nazionale di Capodimonte, em Nápoles

A transfiguração do Senhor é um relato dos evangelhos no qual Pedro Thiago e João presenciaram Jesus em sua excelência divina. Esse acontecimento encontra narrativa nos seguintes textos:

“Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele.* Pedro tomou, então, a palavra e disse-lhe: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”. Falava ele ainda, quando veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: “Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição; ouvi-o”. Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo. Mas Jesus aproximou-se deles e tocou-os, dizendo: “Levantai-vos e não temais”. Eles levantaram os olhos e não viram mais ninguém, senão unicamente Jesus. E, quando desciam, Jesus lhes fez esta proibição: “Não conteis a ninguém o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos”.
“Seis dias depois, Jesus tomou consigo a Pedro, Tiago e João, e conduziu-os a sós a um alto monte. E transfigurou-se diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes e de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra as pode fazer assim tão brancas. Apareceram-lhes Elias e Moisés, e falavam com Jesus. Pedro tomou a palavra: “Mestre, é bom para nós estarmos aqui; faremos três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Com efeito, não sabia o que falava, porque estavam sobremaneira atemorizados.* Formou-se então uma nuvem que os encobriu com a sua sombra; e da nuvem veio uma voz: “Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o”. E olhando eles logo em derredor, já não viram ninguém, senão só a Jesus com eles.”
“Passados uns oito dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para orar. Enquanto orava, transformou-se o seu rosto e as suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que falavam com ele dois personagens: eram Moisés e Elias, que apareceram envoltos em glória, e falavam da morte dele, que se havia de cumprir em Jerusalém.* Entretanto, Pedro e seus companheiros tinham-se deixado vencer pelo sono; ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois personagens em sua companhia. Quando estes se apartaram de Jesus, Pedro disse: “Mestre, é bom estarmos aqui. Podemos levantar três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias!…”. Ele não sabia o que dizia. Enquanto ainda assim falava, veio uma nuvem e encobriu-os com a sua sombra; e os discípulos, vendo-os desaparecer na nuvem, tiveram um grande pavor. Então, da nuvem saiu uma voz: “Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o!”. E, enquanto ainda ressoava esta voz, achou-se Jesus sozinho. Os discípulos calaram-se e a ninguém disseram naqueles dias coisa alguma do que tinham visto

Na ocasião que os evangelhos mencionam, Jesus se transfigura (suas roupas, seu rosto e todo o seu ser brilham tomando uma forma imaterial e cheia de luz, ) ao mesmo tempo aparecem Moisés e Elias ao seu lado no Monte Tabor ou Monte da Transfiguração. Nesse instante igual ao instante do batismo de Jesus, a voz de Deus Pai se sobressai dizendo “Este é o meu Filho muito amado; ouvi-o!”

Esse acontecimento magnifico e de grande poder também é referenciado na II Epístola de São Pedro 1, 16-18: “Na realidade, não é baseando-nos em hábeis fábulas imaginadas que nós vos temos feito conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, mas por termos visto a sua majestade com nossos próprios olhos. Porque ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando do seio da glória magnífica lhe foi dirigida esta voz: “Este é o meu Filho muito amado, em quem tenho posto todo o meu afeto”. Essa mesma voz que vinha do céu nós a ouvimos, quando estávamos com ele no monte santo.”

São Tomás de Aquino se refere a Transfiguração como o maior milagre de Jesus, ela completa o batismo e se permite a mostrar a perfeição do que é a vida no céu.

A transfiguração faz parte dos cinco grandes acontecimentos da narrativa humana de Jesus Cristo que são:

O LIMIAR DA GLORIA ETERNA

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Jesus com Moisés e Elias – pintura do altar na Basilina da transfiguração

 Por um momento, Jesus mostra a sua glória divina, confirmando assim a confissão de Pedro e as explicações de Jesus aos discípulos sobre a sua ida a Jerusalém e seu sofrimento através das mãos “dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia.” (Evangelho de São Mateus 16, 21)

Mostra também que, para “entrar na sua glória” (Evangelho de São Lucas 24, 26), tem de passar pela cruz em Jerusalém. Moisés e Elias tinham visto a glória de Deus sobre a montanha; a Lei e os Profetas tinham anunciado os sofrimentos do Messias. A paixão de Jesus é da vontade do Pai: o Filho age como Servo de Deus.  A nuvem indica a presença do Espírito Santo: «Tota Trinitas apparuit: Pater in voce; Filius in homine; Spiritus in nube clara – Apareceu toda a Trindade: o Pai na voz; o Filho na humanidade; o Espírito Santo na nuvem luminosa.

Transfiguraste-Te sobre a montanha e, na medida em que disso eram capazes, os teus discípulos contemplaram a tua glória, ó Cristo Deus; para que, quando Te vissem crucificado, compreendessem que a tua paixão era voluntária, e anunciassem ao mundo que Tu és verdadeiramente a irradiação do Pai.

No limiar da vida pública, o batismo; no limiar da Páscoa, a transfiguração.

  • Pelo batismo de Jesus «declaratum fuit mysterium primae regenerationis – foi declarado o mistério da (nossa) primeira regeneração» – o nosso Batismo; e a
  • Pela transfiguração ‘est sacramentum secundae regenerationis – é o sacramento da (nossa) segunda regeneração’ – a nossa própria ressurreição.

Desde então, nós participamos na ressurreição do Senhor pelo Espírito Santo que atua nos sacramentos do Corpo de Cristo. A transfiguração dá-nos um antegozo da vinda gloriosa de Cristo, “que transformará (transfigurará) nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso” (Filipenses 3, 21). Mas lembra-nos também que temos de “perseverar na fé, dizendo que é necessário entrarmos no Reino de Deus por meio de muitas tribulações.” (Atos dos Apóstolos 14, 22)

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Transfiguração-de-Cristo-por-Fra-Angelico-(1395-1455,-Italy)

Mensagem dos Papas sobre a transfiguração

Papa São Leão Magno: “Para que os apóstolos concebessem com toda a sua alma essa ditosa fortaleza, não tremessem ante a aspereza da cruz, não se envergonhassem de Cristo e não tivessem por degradante o padecer… manifestou-lhes o esplendor de sua glória, porque, embora cressem na majestade de Deus, ignoravam o poder do corpo sob o qual a divindade se ocultava… Pois, estando ainda revestidos da carne mortal, não podiam ver e compreender, de modo algum, a inefável e inacessível divindade, visão reservada na vida eterna para os limpos de coração”.

Papa Paulo VI: “Cristo é beleza: beleza humana e divina, beleza da realidade, da verdade, da vida” (Insegnamenti IX/1971, 36).

Papa São João Paulo II (em 11/03/2001): Este é um grande mistério para a vida da Igreja, pois não se deve pensar que a transfiguração se realizará só no além, depois da morte. A vida dos santos e o testemunho dos mártires ensinam-nos que, se a transfiguração do corpo se realizará no final dos tempos com a ressurreição da carne, a do coração verifica-se agora nesta terra, com a ajuda da graça.

Podemos perguntar-nos: como são transfigurados os homens e as mulheres? A resposta é sublime: são os que seguem Cristo na sua vida e na sua morte, que se inspiram n’Ele e se deixam inundar pela graça que Ele nos dá; são aqueles, cujo alimento é cumprir a vontade do Pai; os que se deixam guiar pelo Espírito; os que nada antepõem ao Reino de Cristo; os que amam o próximo até derramar por ele o seu sangue; os que estão dispostos a oferecer tudo sem nada exigir em troca; os que em poucas palavras vivem amando e morrem perdoando.

Papa Bento XVI: A transfiguração não é uma mudança de Jesus, mas é a revelação da sua divindade, a íntima compenetração do seu ser com Deus, que se torna pura luz. “No seu ser que é uno com o Pai, Jesus mesmo é Luz da Luz” (Jesús di Nazaré, Milão 2007, 357). Pedro, Tiago e João que contemplam a divindade do Senhor, são preparados para enfrentar o escândalo da cruz, como é cantado em um antigo hino: “Sobre o monte te transfigurastes e os teus discípulos contemplaram a tua glória, a fim que vendo-te crucificado, compreendessem que a sua Paixão era voluntária e anunciassem ao mundo que és verdadeiramente o esplendor do Pai” (20/03/2011)

Papa Francisco: “A transfiguração ajuda os discípulos, e também nós, a entender que a paixão de Cristo é um mistério de sofrimento, mas é, sobretudo, um dom de amor, de amor infinito da parte de Jesus”. E conclui dizendo que “para entender o mistério da Cruz é necessário saber antecipadamente que Aquele que sofre e que é glorificado não é somente um homem, mas é o Filho de Deus, que com seu amor fiel até a morte nos salvou”. em sua homilia no 2º Domingo da Quaresma (25/02/18)

Igreja-da-Transfiguração,-no-Monte-Tabor

Basílica da Transfiguração – Monte Tabor

Igreja da transfiguração

Situada no Monte Tabor ou Monte da transfiguração, existe uma igreja assinalando o local tradicional onde Pedro, Tiago e João viram Jesus transfigurado e falando com Moisés e Elias.

A atual igreja é parte de um mosteiro franciscano, e foi concluída em 1924. O arquiteto foi Antonio Barluzzi. A igreja foi construída no local onde antes existiam as ruínas de duas antigas igrejas:

  • Um antigo templo Bizantino, que data do século IV e VI, e
  • Uma igreja do século XII do Reino Cruzado.

A construção da Basílica, foi tão harmoniosa que se respeitou os vestígios das igrejas que existiam anteriormente como exemplificamos aqui:

  • As torres: as duas torres junto à porta, foram construídas em cima de capelas com absides medievais, hoje dedicadas à memória de Moisés e de Elias; e
  • A cripta: embora a abóbada cruzada primitiva fosse coberta por um mosaico, o altar é o mesmo e também estão à vista restos de alvenaria nas paredes.
  • Gruta do norte: recentemente foi escavada uma pequena gruta ao norte do santuário, debaixo do lugar identificado como refeitório do mosteiro medieval: as paredes continham inscrições em grego e alguns monogramas com cruzes, talvez vestígios do cemitério dos monges bizantinos que habitaram na montanha.

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No monte Tabor existe um complexo cristão (Católico-ortodoxo) que engloba um mosteiro e uma igreja greco-ortodoxa, e cuja construção remonta no século XIX, também erigida sobre ruínas da época dos cruzados.

Já na parte mais alta do monte, no local onde se acredita que tenha acontecido o relato evangélico da transfiguração, destacam-se a ‘Basílica da Transfiguração’ e o convento franciscano.

Uma história de persistência cristã

A exploração arqueológica no Tabor revelou a existência de um santuário nos séculos IV ou V – que alguns testemunhos antigos atribuem a Santa Helena, construído sobre os vestígios de um lugar de culto cananeu. Também algumas narrativas de alguns peregrinos dos séculos VI e VII relatam a existência de três basílicas, em memória das três tendas mencionadas por São Pedro, e a presença de um grande número de monges. Com a descoberta de um pavimento em mosaico dessa época, ratifica a possibilidade de as construções terem sido feitas.

Outros relatos antigos detalham também que o V Concilio, o de Constantinopla, acontecido no ano de 553, erigiu ali, um bispado no Tabor. Bispado este que durante a dominação muçulmana, aquela vida eremítica foi decaindo, e no ano 808, dezoito religiosos com o bispo Teófanes encarregavam-se das igrejas.

Desde o ano 1101, e durante o reino latino de Jerusalém, foi estabelecida uma comunidade de beneditinos no Tabor. Os monges se incumbiram de restaurar o santuário e erguera ali um grande mosteiro, protegido por uma muralha fortificada. Todavia, esta não foi capaz de resistir aos ataques dos sarracenos, que conquistaram a abadia e, entre 1211 e 1212, a converteram num bastião de defesa. Embora se tivesse permitido aos cristãos voltar a tomar posse do lugar algum tempo depois, a basílica foi novamente destruída em 1263 pelas tropas do sultão Bibars.

Por um longo período o monte ficou abandonado até que em 1631, com à chegada dos franciscanos, eles passaram a recupera e tomar conta do lugar, eles conseguiram manter a propriedade do lugar; estudaram e consolidaram as ruínas existentes e, pacientemente esperaram por cerca de três séculos até que uma nova basílica fosse construída e a qual sua conclusão se deu apenas em 1924.

Festa Litúrgica

São várias as denominações que celebram a festa da transfiguração do Senhor. No século IX, já era destacada no calendário litúrgico oriental e no século XV, passou a ser celebrada de forma universal no dia 06 de agosto pelo Decreto do Papa Calisto III.

Lembrando que no segundo domingo da quaresma acontece uma lembrança da transfiguração do Senhor através do evangelho.

Além da Igreja católica Apostólica Romana, a festividade da transfiguração é de grande importância para as Igrejas Ortodoxas, como também para a Igreja Anglicana. Também as Igrejas Luteranas e suas ramificações na Suécia e Finlândia que constituem igrejas autônomas, bem como a Igreja Metodista Unida

Equipe Mais de Deus

Veja também:

Referencias:

  • Livros: Catecismo da Igreja Católica, Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, Dicionário Enciclopédico das religiões – Hugo Schlesinger e Humberto Porto – volume II – Editora Vozes – pág. 2545
  • Sites: Sou Mais de Deus, Wikipédia, ArteBible